O custo de transportar grãos no Brasil pode ser até 48% maior que nos Estados Unidos, dependendo da rota, enquanto a capacidade de armazenagem do país equivale a apenas 62% da produção. Em Mato Grosso, maior produtor nacional de grãos, há espaço para guardar somente metade da safra.
Os gargalos foram discutidos no painel “Logística e Infraestrutura: O Futuro do Escoamento da Produção”, no GAFFFF, em São Paulo, em 2 de outubro.
Para os participantes, ampliar a integração entre os modais e investir em armazenagem são medidas necessárias para acompanhar o crescimento da produção agrícola.
“Quando a gente compara o Brasil com os Estados Unidos e a Argentina, observa que o nosso custo de transporte, a depender da rota, se ela for predominantemente rodoviária, chega a ser 48% maior que o dos Estados Unidos”, afirma Elisangela Pereira Lopes, assessora técnica da Comissão Nacional de Logística e Infraestrutura da CNA e moderadora do painel.
A diferença está relacionada, entre outros fatores, à dependência brasileira do transporte rodoviário e ao aproveitamento das hidrovias pelos americanos.
“Os Estados Unidos são um país de extensão territorial similar ao Brasil, mas utilizam bem a sua hidrovia”, destaca.
O déficit de armazenagem também pesa sobre as regiões produtoras.
“O Mato Grosso é o maior produtor de grãos do Brasil, mas é onde tem o maior déficit também. Ele consegue guardar metade do que produz.”
Integração entre modais
Fernando Dihel, diretor executivo da Ultracargo, defende uma combinação maior entre os diferentes meios de transporte.
Segundo o executivo, Mato Grosso, principal polo produtor de commodities do país, está a distâncias de até 2 mil quilômetros dos portos.
“A matriz de transporte no Brasil hoje está muito em cima do caminhão”, pontua.
Na avaliação de Dihel, o transporte rodoviário é adequado para distâncias curtas e médias, mas a extensão territorial brasileira exige alternativas mais eficientes para os longos percursos.
As condições das rodovias também afetam o escoamento.
Cidinho Santos, ex-senador e presidente do Conselho Administrativo da Nova Rota do Oeste, destaca o peso da BR-163 para a produção mato-grossense.
“A BR-163 é a estrada, a rodovia que 80% da produção do estado transita”, diz.
Responsável pela concessão, a Nova Rota do Oeste já duplicou cerca de 300 dos 450 quilômetros previstos no trecho sob sua administração.
Segundo Cidinho, a previsão é concluir até o fim de 2026 a duplicação entre o Posto Fiscal de Diamantino e Sinop.
“Isso é uma evolução muito grande, não só para as pessoas que transitam na rodovia, mas para o escoamento da produção”, defende.
Mais armazenagem nas fazendas
Investimentos em novas infraestruturas de armazenagem no Brasil vão acompanhar maior agregação de valor ao agro nos próximos anos. Foto: Kepler Weber/Divulgação
O investimento em armazenagem dentro das propriedades deve ganhar velocidade nos próximos anos, avalia Bernardo Nogueira, CEO da Kepler Weber.
Para ele, a redução do ritmo de expansão de novas áreas agrícolas permitirá ao produtor direcionar mais recursos à infraestrutura e à redução de riscos.
“O caixa que vai ser gerado nesses próximos anos, nos próximos dez anos, vai ser investido em reduzir riscos. Ele vai investir em irrigação, em caminhões próprios, em armazenagem. Então, a velocidade de investimento em armazenagem na fazenda vai acelerar muitíssimo nesta próxima década”, acredita.
Nogueira também projeta uma etapa de maior agregação de valor à produção brasileira, com o avanço de atividades como a fabricação de etanol de milho e biodiesel.
“O Brasil foi essa pujança nos últimos 30 anos em produção, e vai acelerar a pujança na industrialização do agronegócio”, destaca.
Para o executivo, a previsibilidade é a principal condição para viabilizar os investimentos.
“Não precisamos de subsídio de nada, a gente só precisa ter previsibilidade para poder fazer bons investimentos”, ressalta.